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100 dias de consumo: 8 mil milhões perdidos no período de pandemia
2020-07-06

Segundo as projeções SIBS Analytics, o consumo em Portugal ainda está 25% abaixo do expectável para esta altura do ano, apesar da reabertura e da recuperação gradual global da economia. A estimativa de transações perdidas no período de pandemia (março a junho) atinge os oito mil milhões de euros, equivalente a cerca de 200 milhões de transações.

100 dias de consumo

No sentido de contribuir para a avaliação do impacto do novo coronavírus nos hábitos de consumo dos portugueses, na economia e sociedade em geral, a SIBS divulgou, ao longo das últimas 15 semanas, um conjunto de indicadores de evolução de consumo em Portugal, que permitiu compreender as consequências reais da pandemia em várias vertentes. Esta semana, os dados apresentam uma visão mais abrangente, ao analisar o período dos 100 dias desde que foi declarado o estado de emergência em Portugal, permitindo diferentes perspetivas e comparações sobre a evolução do consumo no país.

Dessa análise, constata-se que, de facto, o período de confinamento gerou uma quebra de cerca de 50% nas compras físicas face aos meses pré-Covid (janeiro e fevereiro). Nas compras online, a diminuição foi menos expressiva, de apenas 17%, pelo que estas assumiram um peso maior no total de transações realizadas. Ou seja, o peso do e-commerce no total de compras passou de 9%, no período antes da pandemia, para 14% no período de maior confinamento e situa-se agora nos 11%. “Esta preponderância do canal digital poderá evidenciar tanto a necessidade – fruto do confinamento – como a preferência – por segurança – da utilização do canal digital, embora não seja suficiente para compensar a queda do consumo global”, defende a SIBS.

Os dados referentes às compras com cartão através rede Multibanco, e comparando comportamentos pré e atual crise sanitária, permitem concluir que 60% dos consumidores reduziram significativamente as transações feitas com cartão face ao observado anteriormente.

Nesta análise sobre a utilização de cartões com operações regulares (duas ou mais transações por semana no período de janeiro a fevereiro), percebe-se que cerca de 15% confinou totalmente, 45% confinou seriamente, 30% confinou moderadamente e 10% não confinou.

Crescimento do “sem contacto”

Os dados também mostram o crescimento da utilização e do peso do serviço MB WAY como meio de pagamento no total das compras físicas, ao atingir valores recordes nos últimos meses. Neste período, duplicou o volume de transações face ao início do ano, antes do aparecimento do primeiro caso de Covid-19 em Portugal.

De facto, nas compras em loja, o serviço MB WAY demonstrou um comportamento distinto dos pagamentos com cartão, registando um crescimento assinalável na utilização média diária neste retorno gradual da economia, correspondendo ao final do período em análise, em comparação com a média anterior ao primeiro caso em Portugal. Enquanto as compras em loja com cartões continuam ainda numa média inferior a janeiro e fevereiro, apesar da recuperação gradual do consumo (cerca de 80% do volume normal), as compras físicas através do serviço MB WAY registam um incremento de 93% do volume de transações face ao início do ano, demonstrando a procura por um método de pagamento sem contacto (smartphone) e indicando uma mudança permanente nos hábitos do consumidor.

No que toca aos valores médios por compra, os dados demonstram um aumento progressivo face à média de 34,7 euros no período pré-pandemia, durante as fases de preparação (36,7 euros) e de maior confinamento (39,3 euros). O valor médio por transação em loja apenas reduziu na fase de retorno gradual para 37,8 euros por transação, ainda assim acima da média anterior ao registo do primeiro caso em Portugal.

O crescimento dos pagamentos através do MB WAY também se verificou no e-commerce, contrariando novamente a tendência global. Este serviço registou um comportamento resiliente durante o período de maior confinamento, com número de transações 5% acima do verificado em janeiro e fevereiro, e ganhou um peso ainda maior na fase de retorno gradual, na qual a utilização média diária ficou 26% acima do registo nos primeiros dois meses de 2020.

Analisando o valor médio por transação no e-commerce, após uma redução na fase de preparação, os consumidores aumentaram progressivamente os gastos por cada compra online face à média de 37,5 euros em janeiro e fevereiro. Durante a fase de confinamento, a média aumentou para 39,4 euros por compra e, no retorno gradual, o valor atingiu os 39,8 euros de média por transação.

Comércio local contraria tendência generalizada de quebra

Na análise ao consumo em loja por sector de atividade, os dados demonstram que o comércio de proximidade física – mercearias e minimercados e produtos alimentares, bebidas e tabaco – foi o único que contrariou a tendência geral de quebra do consumo, apresentando-se em contraciclo e verificando um número de transações ao longo da pandemia superior ao do início de ano.

Os sectores dos super e hipermercados, gasolineiras/matérias-primas e farmácias e parafarmácias mostraram-se resilientes ao longo do período em análise, com alguma quebra no volume de transações durante o período de confinamento, mas com uma recuperação muito rápida na fase de retorno gradual.

Entre os sectores mais vulneráveis aos efeitos da pandemia nas transações surgem a restauração, moda e acessórios, transporte de passageiros e alojamento turístico. Nestes sectores, foi registada uma diminuição muito significativa no período de confinamento e a recuperação está a ser gradual.

Mais dados relativamente a outros segmentos da economia mostram que começa a verificar-se um regresso gradual ao turismo interno, com os hotéis com restaurante a 60% dos volumes de início de ano.

Já as agências de viagem parecem evidenciar a falta de interesse no turismo fora de Portugal, com manutenção da atividade nula mesmo após o fim do confinamento.

Por outro lado, a atividade veterinária manteve-se resiliente ao longo do período de pandemia, verificando quebras na ordem dos 30% no período de confinamento e mostrando agora já valores superiores ao início de ano com o retorno gradual da economia. Já os dentistas viram reduções na sua atividade de 90% a 100% durante o período de confinamento.

E-commerce compensa encerramento das lojas físicas

Na análise às compras online por sector de atividade, é possível perceber que os crescimentos mais significativos foram registados em alguns dos sectores mais afetados pelo fecho dos estabelecimentos físicos. A moda e acessórios e a restauração registaram um crescimento significativo face aos meses pré-pandemia na média diária de transações online, tal como os sectores da cultura, entretenimento e subscrições e do comércio alimentar e retalho.

Ainda assim, este crescimento foi sobretudo baseado no desvio do consumo em loja para o digital, apesar do aumento no e-commerce não ter sido suficiente para compensar a diminuição de transações físicas.

Os sectores do lazer e do transporte de passageiros registaram as quebras mais significativas na média diária de transações online durante o período de confinamento, com uma recuperação lenta na fase de retorno gradual.

Volume de compras internacionais com quebra significativa

O volume de compras internacionais (estrangeiros em Portugal e portugueses no estrangeiro) em loja, durante a pandemia, sofreu quebras muito significativas, principalmente no que toca às transações feitas com cartões internacionais em Portugal.

Durante a fase de confinamento, a redução da média diária de compras físicas de estrangeiros foi equivalente a 83% face à média anterior ao primeiro caso registado em Portugal, com uma pequena recuperação na fase de retorno gradual, registando-se, ainda assim, uma média 72% inferior à registada no pré-pandemia.

As compras com cartões portugueses no estrangeiro diminuíram 65% durante a fase de confinamento, recuperando ligeiramente na fase de retorno gradual, apesar de ainda ser registada uma quebra de 53% em comparação com a média de janeiro e fevereiro.

As tendências verificadas indiciam uma quebra no turismo, com o encerramento de fronteiras e um regresso de emigrantes aos seus países, com uma recuperação apenas ligeira nas semanas de desconfinamento.

Maior confinamento na região de Lisboa e Vale do Tejo e na Madeira

Numa análise regional, a região de Lisboa e Vale do Tejo e a Região Autónoma da Madeira foram as que evidenciaram um maior grau de confinamento, registando quebras de consumo na ordem dos 50% face ao início do ano. Além disso, são também estas as regiões que mais longe estão dos valores pré-crise (69% a 79%, respetivamente).

Já a região do Alentejo, a região do Algarve e a Região Autónoma dos Açores mostraram menor grau de confinamento, com o Alentejo a aproximar-se já dos valores registados antes da pandemia. As duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto, assistiram a uma descida de 65% a 70% no consumo global no período de confinamento quando comparado com os volumes registados no início do ano. Lisboa ainda está a 50% dos valores antes da pandemia.

De referir, por fim, que os concelhos cujo número de infetados, numa fase inicial – a 24 de março -, é mais elevado apresentam reduções mais abruptas no número de transações, com os indivíduos a adotarem mais severamente comportamentos de isolamento.

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L.Branca/PAE

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